A Santíssima Trindade da Representação: Associação, Sindicato e Conselho

Olá, meus nobres colegas da SBMTI. Eduardo Henrique aqui.

​Hoje, deixamos de lado as metáforas de heróis para adentrarmos na Filosofia Política e no Direito Administrativo. Precisamos entender as engrenagens que movem — ou travam — a nossa profissão.

​Uma pergunta recorrente em nosso Networking e em toda a comunidade é: “Por que a SBMTI não fiscaliza os maus profissionais?” ou “Por que não temos um número de registro federal obrigatório como os médicos têm o CRM?”.

​Para responder a isso, precisamos revisitar o filósofo Thomas Hobbes. Em sua obra O Leviatã, ele descreve que, para haver ordem social, os indivíduos transferem parte de sua liberdade a um poder central (o Estado), que detém a autoridade de punir. Sem esse “Poder de Polícia”, vivemos no estado de natureza.

​Hoje vamos dissecar a anatomia do poder profissional e entender por que, legalmente, ainda não temos o nosso “Leviatã” (nosso Conselho Federal).

​A Santíssima Trindade da Representação: Associação, Sindicato e Conselho

​Há uma confusão crônica no Brasil entre três entidades distintas. Entender essa diferença é vital para não cobrarmos a árvore por não dar frutos que só a terra pode dar. Vamos à ciência jurídica:

1. O Sindicato (A Luta Trabalhista)

​O Sindicato defende o profissional contra o empregador. Sua natureza é privada, mas com prerrogativas constitucionais.

  • Função: Lutar por piso salarial, horas extras, condições de trabalho.
  • Filosofia: É a união de classe marxista clássica; a força da mão de obra unida.
  • O que ele NÃO faz: Ele não cassa licença de trabalho por erro técnico.

2. A Associação (Ex: SBMTI)

​A Associação (como a nossa querida SBMTI) é uma sociedade civil de direito privado. Ela reúne pessoas com interesses comuns.

  • Função: Promover a ciência, a educação, o networking, a cultura e a defesa política da classe.
  • Filosofia: É a Ágora grega. O local do debate, do aprendizado e da evolução voluntária.
  • O Limite: A SBMTI não tem “Poder de Polícia”. Nós não podemos invadir uma clínica e multar um massoterapeuta. Nós podemos recomendar, educar e certificar qualidade, mas não temos o poder estatal de punir legalmente o exercício da profissão.

3. O Conselho de Classe (O “CRM” da Massagem)

​Aqui está o “Santo Graal” que ainda não temos. O Conselho (como o CRM, COREN, CREFITO) não é uma ONG nem uma empresa. Ele é uma Autarquia Federal.

  • Natureza Jurídica: É um braço do Estado. Faz parte da Administração Pública Indireta.
  • Função: Sua função primordial não é defender o profissional, mas defender a SOCIEDADE do mau profissional.
  • Poder: Ele detém o poder de fiscalizar, multar, suspender e cassar o registro (impedir de trabalhar).

​O Mistério do COFEMA: Por que ele nunca nasceu?

​Muitos antigos na profissão ouviram falar do COFEMA (Conselho Federal de Massoterapia). Por que ele é uma lenda urbana?

​A resposta está na Constituição Federal. Criar um Conselho de Classe significa criar uma Autarquia. Autarquias geram despesas públicas e tributos (a anuidade do conselho tem natureza tributária).

​Segundo a nossa Constituição, leis que criam órgãos da administração pública ou geram despesas para o Executivo são de iniciativa privativa do Presidente da República. O Congresso não pode, sozinho, criar um Conselho se o Executivo não der o aval, pois isso fere a separação dos poderes (vício de iniciativa).

​Historicamente, as tentativas de criar o COFEMA esbarraram nisso. O Estado olha e diz: “Para que vou criar mais uma máquina pública para fiscalizar massagistas se eles já são regidos por uma lei de 1961 que não exige nível superior?”.

​É um ciclo vicioso: sem nível superior reconhecido e sem uma lei moderna, o governo não vê necessidade de um Conselho. Sem Conselho, não temos fiscalização.

​A Consequência Prática: O Vácuo da Ozonioterapia e Invasivos

​Voltando ao nosso debate anterior sobre Ozonioterapia e procedimentos invasivos. Aqui está a conexão crucial.

​Para que um profissional realize um procedimento de risco (como injetar ozônio ou usar agulhas), ele precisa de uma Resolução Normativa que regulamente essa prática. Quem emite essa resolução? O Conselho Federal daquela classe (ex: o COFEN emite resoluções para enfermeiros).

Como não temos Conselho Federal, não temos quem emita a resolução.

​Sem resolução, qualquer ato invasivo realizado por um massoterapeuta cai no “limbo”. E, no Direito, o que não é explicitamente regulamentado para uma profissão técnica, mas é exclusivo de outra (médica), torna-se crime de exercício ilegal.

​Se tivéssemos um Conselho hoje, ele poderia baixar uma norma: “Fica autorizado ao Massoterapeuta com Especialização em X realizar o procedimento Y”. Essa norma teria força de lei administrativa. Sem ela, estamos à mercê da interpretação de juízes que, na dúvida, protegerão a saúde pública vetando nossa atuação.

​Conclusão: A Liberdade e a Responsabilidade

Jean-Paul Sartre dizia que “estamos condenados a ser livres”. Hoje, a Massoterapia vive uma liberdade perigosa. Como não temos um “pai” (Conselho) para nos vigiar, muitos fazem o que querem. Mas essa liberdade cobra um preço alto: a falta de reconhecimento e a insegurança jurídica.

​O caminho para termos nosso “CRM” passa, inevitavelmente, pela aprovação do PL 1262/2023 e pela elevação do nosso nível educacional. O Estado só cria Conselhos para profissões que ele considera de alta complexidade e risco social. Precisamos provar que somos essa profissão.

​Enquanto isso, a SBMTI continua sendo sua casa de saber e orientação ético-filosófica. Não podemos multar, mas podemos iluminar o caminho.

“Mãos que curam precisam de mentes que estudam.”

Um abraço fraterno e até a próxima reflexão.

Eduardo Henrique

Coordenador Nacional de Terapias Integrativas – SBMTI

(RQMTI-SBES-068)

Filósofo | Massoterapeuta Integrativo | Eterno Aprendiz

Coordenador de Terapias Integrativas da SBMTI

Reflexão: Você estaria disposto a pagar uma anuidade obrigatória (como a do COREN ou CREFITO) em troca de ter uma fiscalização que retirasse do mercado os maus profissionais? O preço da regulação é o bolso. Vamos debater? 👇

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