Quebrando o Mito: A Massagem Modeladora Realmente ‘Quebra’ Gordura?

Olá, meus estimados colegas da SBMTI. Aqui é o Eduardo Henrique.

​Hoje, nosso diálogo nos convida a sair da caverna das sombras — onde vivem as crenças populares e o marketing agressivo — para a luz do sol da fisiologia e da evidência científica.

​Na história da ciência, a Alquimia buscava transformar chumbo em ouro através da “Pedra Filosofal”. Na nossa prática moderna, muitas vezes somos tentados a vender a Massagem Modeladora como uma alquimia capaz de “quebrar” a gordura e fazê-la desaparecer magicamente.

​Mas, como filósofos do corpo e técnicos em saúde, temos o dever ético de perguntar: isso é biologicamente possível? Ou estamos vendendo uma ilusão?

​Vamos ao Tema 5 da nossa jornada: a verdade fisiológica sobre a gordura e as nossas mãos.

​A Falácia da “Quebra”: Por que suas mãos não são um ultrassom

​Vamos começar desconstruindo o termo que domina os folhetos de propaganda: “Quebrar Gordura”.

​Do ponto de vista da citologia (o estudo das células), a gordura fica armazenada dentro dos adipócitos. Imaginem o adipócito como um pequeno balão cheio de azeite, protegido por uma membrana resistente.

​Para que a gordura realmente “suma” dali, precisam ocorrer dois processos:

  1. Lipólise: A célula esvazia o conteúdo (triglicerídeos) para a corrente sanguínea ser usado como energia. Isso é químico/hormonal.
  2. Apoptose ou Necrose: A morte da célula de gordura.

​A ciência é taxativa: Não existe lipólise mecânica manual.

​Se a força das suas mãos fosse capaz de romper (estourar) a membrana de um adipócito, a força necessária seria tamanha que você também romperia vasos sanguíneos, capilares linfáticos e terminações nervosas. O resultado não seria “modelagem”, seria traumatismo.

​Uma massagem que deixa o cliente roxo não “quebrou gordura”. Ela causou um hematoma, uma hemorragia interna. O corpo, em vez de eliminar gordura, parará tudo para reparar o tecido lesionado (inflamação). Como discutimos em nosso grupo, a dor excessiva e o roxo são sinais de imperícia, não de eficácia.

O Que Realmente Acontece? (A Verdade Fisiológica)

“Mas Eduardo, a cliente mediu e perdeu 3 cm na hora! Como você explica isso?”

​Excelente pergunta. A redução de medidas é real, mas a causa não é a perda de gordura. A massagem modeladora vigorosa atua em três frentes principais, que a fisiologia explica:

  1. Redução de Edema (Inchaço): Grande parte do volume abdominal é retenção hídrica. A pressão das manobras, mesmo na modeladora, acaba estimulando o retorno venoso e linfático (ainda que de forma menos otimizada que a drenagem clássica). Você moveu água, não gordura.
  2. Tixotropia e Redistribuição: Aqui entra um conceito fascinante. A substância fundamental da nossa fáscia e tecido subcutâneo se comporta como um gel. Com o calor e a fricção (energia cinética), esse gel se torna mais fluido (efeito tixotrópico). Isso nos permite “moldar” temporariamente o tecido, realocando os fluidos e a disposição do tecido adiposo. É como alisar um lençol amassado: o tecido é o mesmo, mas a superfície fica mais plana.
  3. Hiperemia (Afluxo de Sangue): O vermelhidão na pele indica aumento de sangue na região. Isso melhora a oxigenação e o metabolismo local momentaneamente, o que é saudável, mas não queima calorias suficientes para emagrecer ninguém.

A Exceção Científica: A Sinergia Pós-Criolipólise

​Na filosofia da ciência, toda regra tem sua exceção ou condição específica. Existe um momento em que a massagem vigorosa realmente ajuda a eliminar gordura? Sim, mas como coadjuvante.

​Estudos sérios na área de dermato-funcional mostram que a massagem vigorosa realizada imediatamente após uma sessão de Criolipólise aumenta a eficácia do tratamento.

​Por que? Porque a Criolipólise (o congelamento) já causou a cristalização e a morte programada (apoptose) ou a inflamação do adipócito. A célula já está “condenada” pelo aparelho. Nesse cenário específico, a massagem manual ajuda a:

  • ​Reperfundir o tecido (trazer sangue de volta);
  • ​Desestruturar os cristais de gelo formados;
  • ​Acelerar o processo de eliminação dos debros celulares pelo sistema imunológico.

​Neste caso, a massagem é o “coveiro” que ajuda a limpar o terreno, mas quem “matou” a gordura foi o frio do equipamento, não a mão do terapeuta.

O Imperativo Ético (A Práxis)

​Por que insistimos em usar a terminologia correta? Porque, como dizia Kant, devemos agir de tal maneira que nossa ação possa se tornar uma lei universal.

​Se prometemos “quebrar gordura” e a cliente não emagrece (porque ela saiu da sessão e comeu carboidratos, repondo o glicogênio e a água), nós perdemos a credibilidade.

​O massoterapeuta de elite, o membro da SBMTI, deve dizer ao cliente:

“Olha, minha massagem não vai quebrar sua gordura na marra. O que eu vou fazer é remodelar sua silhueta, drenar o inchaço, melhorar a oxigenação da sua pele e preparar seu corpo para que, com dieta e exercício, você tenha resultados muito mais rápidos.”

​Isso é honestidade. Isso é ciência. E, paradoxalmente, a verdade fideliza muito mais do que a promessa milagrosa que não se sustenta.

​Sejamos técnicos, sejamos precisos. Nossas mãos são ferramentas de saúde, não rolos compressores.

“Mãos que curam precisam de mentes que estudam.”

Um abraço fraterno e até a próxima reflexão.

Eduardo Henrique

Coordenador Nacional de Terapias Integrativas – SBMTI

(RQMTI-SBES-068)

Filósofo | Massoterapeuta Integrativo | Eterno Aprendiz

Reflexão para o debate: Como você explica para sua cliente que a massagem modeladora não emagrece por si só? Qual a analogia que você usa? Compartilhe sua didática nos comentários! 👇

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