Corpo, Respeito e Limites: Protocolos Contra o Assédio Sexual no Atendimento

Olá, meus nobres colegas da SBMTI. Aqui é o Eduardo Henrique.

Hoje, precisamos ter uma das conversas mais difíceis, porém mais necessárias, da nossa jornada profissional. Vamos falar sobre o “Elefante na Sala”: o assédio e a sexualização da nossa profissão.

Na filosofia existencialista, Jean-Paul Sartre descreve o conceito do “Olhar do Outro”. Ele diz que, quando somos observados, deixamos de ser sujeitos livres e nos tornamos “objetos” na visão do observador. Infelizmente, muitos massoterapeutas — especialmente as mulheres, mas também os homens — sofrem com esse “olhar objetificador” de clientes que confundem a intimidade terapêutica com a intimidade sexual.

A cabine de massagem é um templo de saúde (Temenos, como diriam os gregos), um espaço sagrado de cura. Quando esse espaço é violado pelo assédio, a profissão inteira sangra.

Para o Tema 10, não trago apenas reflexão, mas armas de defesa. Vamos desenhar protocolos de postura e técnica para blindar seu atendimento e impor o respeito que você merece antes mesmo de tocar no cliente.


1. A Anatomia do Respeito: O Consentimento Informado

O maior erro técnico que abre margem para interpretações erradas é o silêncio explicativo.

Muitas vezes, precisamos trabalhar áreas anatomicamente próximas a zonas erógenas: o glúteo máximo (para tratar ciatalgia), os adutores da coxa (para pubalgia), o peitoral maior (para ombros enrolados).

Se você simplesmente coloca a mão nessas regiões sem avisar, você invade o espaço pessoal do cliente.

O Protocolo de Consentimento: Antes de tocar em qualquer área “sensível”, você deve verbalizar a Justificativa Clínica.

  • Errado: Simplesmente começar a massagear o glúteo.
  • Correto (Técnico e Filosófico): “Sr. João, para aliviar essa dor na sua lombar, a anatomia exige que eu libere a tensão no músculo glúteo, que é a base da sua coluna. O senhor me autoriza a manipular essa região?”

Ao pedir autorização e explicar o “porquê” anatômico, você muda a chave mental do cliente de “prazer” para “tratamento”. Você reafirma sua autoridade de profissional de saúde.

2. O Escudo Invisível: A Técnica de Drapejamento

O drapejamento (o uso correto dos lençóis e toalhas) não é apenas para o cliente não sentir frio. Ele é a sua barreira de segurança física e jurídica.

Um bom drapejamento diz, sem palavras: “Aqui existe um limite. Eu vejo apenas o tecido que estou tratando, não o seu corpo nu.”

A Técnica de Ouro: Jamais deixe o cliente totalmente exposto.

  • Vai tratar as costas? Descubra apenas as costas, mantenha os glúteos cobertos com a toalha presa na lateral da roupa íntima (ou fazendo a “fralda” com o lençol).
  • Vai tratar a perna posterior? Isole a perna. A toalha deve ser passada firmemente entre as pernas (na virilha), criando uma barreira física que impede qualquer toque acidental em genitais e protege o terapeuta.

O drapejamento seguro protege o terapeuta de ser acusado de toque indevido e sinaliza para o cliente mal-intencionado que ali não há espaço para voyeurismo.

3. A Semântica da Autoridade: Postura Verbal e Não-Verbal

A comunicação não-verbal representa mais de 70% da nossa mensagem. O modo como você se veste, fala e toca define se você será visto como um “massagista de relaxamento duvidoso” ou um “Doutor das Mãos”.

O Vocabulário Clínico (Logos)

As palavras têm poder. Elimine do seu vocabulário termos infantis ou coloquiais que sexualizam o corpo.

  • Não diga “bumbum”, diga Glúteo.
  • Não diga “virilha”, diga Região Inguinal ou Adutores.
  • Não diga “peitinho”, diga Peitoral ou Mamas.
  • Não diga “massagenzinha gostosa”, diga Manobra Terapêutica ou Protocolo de Relaxamento.

A frieza dos termos técnicos cria um distanciamento saudável. É difícil alguém manter uma fantasia sexual enquanto ouve sobre “inserção do trocânter maior” ou “linfonodos inguinais”.

A Postura Física (Ethos)

  • O Jaleco: Mantenha-o impecável e fechado. Ele é sua armadura.
  • O Toque: Seu toque deve ser firme, seguro e intencional. Toques leves demais, roçando a pele sem propósito (a não ser em drenagem), podem ser confundidos com carícia. A massagem terapêutica tem pressão, tem direção e tem fim.

4. O Protocolo de Reação: Quando o Limite é Cruzado

E se, mesmo com tudo isso, o cliente fizer uma piada, uma insinuação ou tiver uma ereção?

Aqui invocamos o Estoicismo: Controle emocional absoluto. Não ria de nervoso, não finja que não ouviu.

  1. Parada Imediata: Retire as mãos do cliente. O contato físico é um privilégio que ele acabou de perder.
  2. O Olhar de Gelo: Olhe nos olhos com seriedade, sem sorriso.
  3. A Frase de Contenção: “Senhor, minha conduta é estritamente terapêutica. Esse tipo de comportamento/comentário inviabiliza a continuidade do tratamento. Peço que respeite meu trabalho.”
  4. Encerramento: Se o comportamento persistir, encerre a sessão. “Por favor, vista-se. O atendimento está encerrado.” Saia da sala.

Não tenha medo de perder o cliente. Um cliente que assedia não é um cliente, é um problema. O dinheiro dele não vale a sua paz e a dignidade da sua profissão.

Conclusão: O Guardião do Templo

Meus amigos, nós tocamos onde ninguém toca. Lidamos com a dor e a vulnerabilidade. Isso exige de nós uma postura de guardiões.

Ao impor limites claros, você não está sendo “chato” ou “rude”. Você está educando a sociedade de que a Massoterapia é Saúde, é Ciência e é Sagrada.

Que nossa postura seja tão firme quanto nossas mãos.

“Mãos que curam precisam de mentes que estudam.”

Um abraço fraterno e até a próxima reflexão.

Eduardo Henrique

Coordenador Nacional de Terapias Integrativas – SBMTI

(RQMTI-SBES-068)

Filósofo | Massoterapeuta Integrativo | Eterno Aprendiz


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