Olá, meus estimados colegas da SBMTI. Aqui é o Eduardo Henrique.
Na medicina hipocrática, o primeiro mandamento é Primum non nocere (“Primeiro, não cause o mal”). No entanto, em muitas cabines de massoterapia pelo Brasil, parece imperar uma regra não escrita, quase um dogma de academia de musculação dos anos 80: “No Pain, No Gain” (Sem dor, sem ganho).
Chegamos ao Tema 13, e é hora de desarmar um dos mitos mais persistentes e agressivos da nossa prática: a ideia de que a Liberação Miofascial precisa ser uma tortura para ser eficiente.
Muitos clientes chegam pedindo para “sofrer”, acreditando que se não doer, o terapeuta não “pegou fundo”. E nós, muitas vezes, compramos essa ideia. Mas hoje, convido vocês a olharem para a Biotensegridade e a Neurofisiologia. A ciência já provou: a força bruta não libera a fáscia; o que libera é a inteligência tátil.
1. O Mito da “Soltura” Mecânica: Suas mãos não são um Trator
Durante décadas, acreditou-se que a fáscia era como uma massa de modelar dura que precisava ser “amassada” com força para ficar mole. Acreditávamos que estávamos alongando plasticamente o tecido colágeno denso.
Porém, um estudo divisor de águas de Chaudhry et al. (2008) derrubou essa tese. Os pesquisadores calcularam a força necessária para deformar (alongar) em apenas 1% a fáscia lata e a fáscia plantar.
A conclusão científica: Seriam necessários mais de 900 kg de força.
Isso mesmo. Para “soltar” a fáscia mecanicamente, na força bruta, você precisaria passar com um carro por cima da perna do cliente. Portanto, quando você sente o tecido relaxar sob suas mãos, não foi você que esticou a fibra colágena. Fisicamente, isso é impossível para um humano.
Se não foi a força mecânica, o que foi?
2. O Segredo é o Sistema Nervoso (O Efeito Neurofisiológico)
A fáscia não é apenas uma “embalagem” inerte; ela é o órgão sensorial mais rico do corpo. Ela está repleta de mecanorreceptores (Ruffini, Pacini, Golgi e Terminações Livres).
Quando aplicamos a liberação miofascial (manual ou instrumental), não estamos moldando o tecido como um ferreiro molda o ferro no fogo. Estamos, na verdade, enviando uma “mensagem de texto” para o Sistema Nervoso Central (SNC).
- O Toque Agressivo: Ativa os nociceptores (receptores de dor). O cérebro entende como ataque. A resposta reflexa é contrair para proteger. Ou seja, a dor excessiva gera mais tensão.
- O Toque Firme e Lento (Ruffini): O deslizamento tangencial, lento e profundo (mas suportável), ativa os Corpúsculos de Ruffini. Eles dizem ao cérebro: “Pode baixar o tônus simpático, está tudo bem aqui”.
O relaxamento que sentimos é uma resposta neurológica de inibição do tônus, e uma mudança na viscosidade do ácido hialurônico (tixotropia), não um “esticamento” da fibra.
3. Iatrogenia: Quando o Roxo não é Troféu
Na filosofia estoica, a dor é um sinal, uma informação. Na massoterapia errada, a dor vira o objetivo.
Muitos terapeutas exibem fotos de costas roxas e hematomas gigantescos como se fossem medalhas de um “bom trabalho”. Isso é um erro fisiológico grave chamado Iatrogenia (doença causada pelo tratamento).
- Hematoma = Hemorragia: O roxo significa que você rompeu capilares sanguíneos. O sangue extravasou.
- Inflamação: O corpo agora precisa parar o processo de cura da lesão original para curar a lesão que você causou. Você gerou uma cascata inflamatória (citocinas, histamina) em um tecido que você queria desinflamar.
Há uma diferença vital entre a Hiperemia (vermelhidão saudável, sinal de sangue chegando) e a Equimose (roxo, sinal de vaso estourado). A liberação miofascial busca a primeira e evita a segunda.
4. A Prudência com IASTM e Ventosas
A mesma lógica se aplica aos Instrumentos de Liberação (IASTM – raspadores) e às Ventosas.
No nosso grupo de Networking, discutimos o fascínio pelas ferramentas. O problema não é a ferramenta, é a mão pesada.
- Raspagem: O objetivo é criar uma vibração que estimule os fibroblastos e organize o colágeno. Se parecer que você está “ralando queijo” na pele do cliente, está errado.
- Ventosa: O círculo roxo escuro/preto não é necessariamente “toxina saindo”. Muitas vezes é apenas uma sucção excessiva que causou hipóxia tecidual e lesão vascular.
Conclusão: A Arte da Persuasão Celular
Meus amigos, a liberação miofascial é uma negociação, não uma guerra.
Você não vence a rigidez da fáscia na briga. Você a vence na conversa. O toque deve ser profundo o suficiente para conectar, lento o suficiente para dar tempo ao sistema nervoso processar, e respeitoso o suficiente para não gerar defesa.
Como dizia Bruce Lee: “Seja água, meu amigo”. A água fura a pedra não pela força, mas pela constância.
Vamos atualizar nosso software. Menos força bruta, mais inteligência biológica.
“Mãos que curam precisam de mentes que estudam.”
Um abraço fraterno e até a próxima reflexão.
Eduardo Henrique
Coordenador Nacional de Terapias Integrativas – SBMTI
(RQMTI-SBES-068)
Filósofo | Massoterapeuta Integrativo | Eterno Aprendiz
Vamos debater: Você já teve que explicar para um cliente que “não precisa doer para funcionar”? Qual analogia você usa? Compartilhe sua didática nos comentários! 👇

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