Olá, meus caros colegas da SBMTI. Aqui é o Eduardo Henrique.
Hoje, convido vocês a desligarem o piloto automático. Vamos deixar de lado por um instante os atlas de anatomia e as tabelas de inserção muscular para mergulharmos na essência mais profunda da nossa profissão.
A filosofia, especialmente um ramo chamado Fenomenologia, nos oferece uma lente poderosa para entender o que realmente acontece dentro da cabine de massagem. O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty dizia que “o corpo é o nosso meio geral de ter um mundo”. Nós não temos um corpo, nós somos um corpo.
No Tema 17, vamos explorar essa visão revolucionária. Se você entender a diferença entre tratar um “corpo objeto” e acolher um “corpo vivido”, suas mãos nunca mais tocarão um cliente da mesma forma.
O Dilema Alemão: Körper vs. Leib
Para entender a profundidade do nosso trabalho, precisamos pegar emprestado dois termos da filosofia alemã (usados por Husserl e Stein) que não têm tradução direta, mas que definem tudo:
O Körper (O Corpo Físico/Objeto)
É o corpo da anatomia e da medicina tradicional.
- É o corpo que pesa 70kg, que tem um fêmur, um bíceps e um fígado.
- É o corpo que enxergamos como uma máquina biológica feita de peças.
- Quando você diz: “Vou liberar o músculo trapézio superior”, você está lidando com o Körper.
O Leib (O Corpo Vivido/Senciente)
É o corpo como eu o sinto e vivencio por dentro.
- É o corpo que sente frio, medo, alegria, expansão e contração.
- No Leib, o braço não é apenas um membro superior; é a ferramenta que abraça um filho ou empurra um inimigo.
- Quando o cliente diz: “Sinto que carrego o mundo nas costas”, ele está falando do Leib.
Onde está o erro da maioria? A maioria dos massoterapeutas é treinada para tratar o Körper (amassar a fibra), mas o cliente chega na clínica sofrendo no Leib (sentindo a angústia da tensão). Se você trata apenas a carne e ignora a vivência, o alívio é temporário, pois a raiz do problema (a vivência tensional) permanece.
Tocando Biografias, Não Apenas Fibras
A fenomenologia nos ensina que a consciência não está presa no cérebro; ela é incorporada. O corpo guarda memórias.
Wilhelm Reich, psicanalista e cientista, chamava isso de “Couraça Muscular”. Merleau-Ponty chamaria de “Intencionalidade Motora”.
Quando você encontra um nódulo (ponto gatilho) endurecido na região interescapular (entre as escápulas), anatomicamente, aquilo é uma isquemia local com sarcômeros travados. Mas, fenomenologicamente, aquilo pode ser:
- Um choro que foi engolido (tensão no diafragma e pescoço);
- Uma atitude de defesa contra um chefe abusivo (ombros enrolados para frente);
- O peso de uma responsabilidade familiar (lombar travada).
Ao tocar essa região, você não está apenas manipulando colágeno. Você está tocando a história daquele sujeito.
Se sua mão for “invasiva” e tentar quebrar o nó à força, o Leib do cliente vai reagir com defesa (dor e contração), pois ele sente que sua história está sendo agredida. Se sua mão for “de escuta”, pedindo licença para entrar, o Leib se sente seguro para “soltar” aquela memória traumática retida na fibra.
A Intencionalidade do Toque
Aqui entra a ferramenta mais poderosa do massoterapeuta, que nenhum aparelho de ultrassom possui: a Intenção.
Na física, toque é pressão. Na fenomenologia, toque é encontro. A mão do terapeuta transmite um estado de espírito.
- Se você está pensando nas contas a pagar enquanto faz a massagem, seu toque é “oco”, vazio. O corpo do cliente sente a ausência e não relaxa profundamente.
- Se você está presente, com a intenção clara de acolher e curar, seu toque tem “peso de alma”.
Essa presença cria um espaço de ressonância. O cliente pensa (mesmo que inconscientemente): “Aqui eu posso baixar a guarda. Aqui eu não preciso ser forte. Aqui eu posso apenas ser”.
É nesse momento que a mágica terapêutica acontece. O sistema nervoso parassimpático assume o controle, o cortisol baixa e a cura se instala.
Conclusão: Filósofos das Mãos
Meus amigos, a anatomia é nosso mapa, mas a fenomenologia é nossa bússola.
Saber onde fica a inserção do músculo é obrigação técnica (Körper). Saber como aquele músculo se relaciona com a vida e a dor da pessoa é sabedoria terapêutica (Leib).
Que, a partir de hoje, ao colocar as mãos em alguém, vocês se lembrem: não estou tocando um conjunto de células. Estou tocando uma vida, um universo particular que confiou a mim o seu bem mais precioso.
Sejamos técnicos, mas sejamos, acima de tudo, humanos.
“Mãos que curam precisam de mentes que estudam.”
Um abraço fraterno e até a próxima reflexão.
Eduardo Henrique
Coordenador Nacional de Terapias Integrativas – SBMTI
(RQMTI-SBES-068)
Filósofo | Massoterapeuta Integrativo | Eterno Aprendiz
Reflexão para o divã: Você já sentiu que, ao tocar um ponto específico, o cliente teve uma reação emocional forte (suspiro profundo, choro, arrepio)? Isso foi o Leib respondendo. Compartilhe (sem expor nomes) essa experiência nos comentários. 👇

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