Olá, meus caros colegas e incansáveis promotores da saúde humanizada! As portas da nossa “Ágora” digital estão abertas para mais um encontro inspirador.
Dando prosseguimento à nossa série de artigos sobre as 29 PICS do SUS, chegamos ao 17º texto. Vamos agora sair das macas e dos consultórios para entrar em uma dinâmica de grupo que une movimento, cultura e pertencimento: a Dança Circular. Após mergulharmos na introspecção do Yoga e da Meditação, hoje o nosso foco é o coletivo.
Acompanhe-me nesta leitura e descubra como o ato de darmos as mãos em roda se tornou uma das ferramentas mais potentes da saúde pública para combater a depressão, o declínio cognitivo e o isolamento crônico.
1. A História da Terapia: De Findhorn para o Mundo
A dança em roda é, sem dúvida, uma das expressões corporais mais antigas da humanidade, historicamente ligada a ritos de passagem, celebrações agrícolas e momentos de comunhão espiritual das tribos ancestrais. No entanto, o movimento contemporâneo conhecido como “Danças Circulares Sagradas” foi estruturado recentemente, na década de 1970.
O grande idealizador dessa sistematização foi o bailarino, coreógrafo e pedagogo alemão/polonês Bernhard Wosien. Após dedicar anos de sua vida a viajar pelo mundo recolhendo e catalogando danças folclóricas de diversos povos, Wosien visitou a famosa Comunidade de Findhorn, no norte da Escócia, em 1976. Lá, ele ensinou pela primeira vez sua coletânea de danças tradicionais aos residentes.
A partir desse encontro histórico, a prática ganhou um forte caráter terapêutico e comunitário, expandindo-se pelo mundo não como um espetáculo para plateias, mas como uma vivência sagrada de conexão entre os participantes.
2. A História no Brasil e o Sucesso Comunitário no SUS
A Dança Circular chegou ao Brasil na década de 1980, inicialmente através de profissionais e buscadores que visitaram a Fundação Findhorn (como Carlos Solano, em 1984). Nos anos 1990, a prática começou a ser introduzida no ambiente acadêmico e de saúde pública, com iniciativas pioneiras como a da terapeuta ocupacional Ana Lúcia Borges da Costa, que aplicou a técnica em disciplinas da Universidade de São Paulo (USP) e em Unidades Básicas de Saúde (UBS).
O grande marco institucional ocorreu em março de 2017, através da Portaria Ministerial nº 849, que incluiu oficialmente a Dança Circular na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) do SUS.
Hoje, a prática é um sucesso absoluto na Atenção Primária à Saúde e nas “Academias da Saúde”, sendo ofertada gratuitamente em parques e praças de grandes capitais, mobilizando principalmente o público da terceira idade para a promoção de saúde mental e convívio social.
3. Escopo Técnico e a Neurobiologia do Movimento Coletivo
O escopo técnico da Dança Circular é conduzido por um “focalizador”, que ensina os passos antes que a música comece. A prática ocorre em roda, de mãos dadas, utilizando o ritmo e o canto. O foco não está na performance estética, no virtuosismo técnico ou na queima de calorias, mas sim na cooperação, no sentimento de pertencimento e no desenvolvimento da atenção plena.
A medicina ocidental baseada em evidências, especialmente a geriatria e a psiquiatria, valida amplamente as intervenções baseadas em dança.
- Benefícios Motores: Ensaios clínicos e revisões demonstram que a Dança Circular traz ganhos motores imensos: melhora do equilíbrio, da flexibilidade, da lateralidade motora e prevenção de quedas em idosos.
- A Neuroquímica da Roda: No campo da neurofisiologia e saúde mental, os movimentos expressivos e o contato físico em grupo disparam a liberação massiva de neurotransmissores como serotonina e endorfina. Estudos indicam que a prática reduz significativamente os sintomas de depressão, diminui o estresse (queda de cortisol) e atua como uma das ferramentas não farmacológicas mais potentes contra o isolamento social e o declínio cognitivo (demência).
4. Quem Pode Atuar? A Situação Legal no Brasil de 2026
Como temos ressaltado nesta jornada, a saúde integrativa é um ecossistema transdisciplinar. Por ser uma dinâmica de grupo focada na cultura, socialização e movimento não extenuante, a Dança Circular possui uma atuação legal altamente inclusiva e democrática no Brasil de 2026.
- Focalizadores e Terapeutas Integrativos: A condução das rodas não é ato privativo de nenhuma classe médica ou fisioterapêutica. Profissionais amparados pela Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), com formação específica na metodologia dos passos e ritmos, atuam legalmente como “Focalizadores” de Dança Circular. O terapeuta filiado à SBMTI pode utilizar essa prática maravilhosamente bem para complementar seus atendimentos de maca, organizando rodas comunitárias com seus pacientes para combater somatizações geradas pela solidão.
- Profissionais da Saúde e Educação: Terapeutas Ocupacionais, Psicólogos e Educadores Físicos utilizam a técnica diariamente no SUS. A Terapia Ocupacional, por exemplo, enxerga a roda como um laboratório perfeito de reabilitação psicomotora e reinserção social para pacientes com transtornos psiquiátricos crônicos.
A regra ética é clara: o focalizador de excelência acolhe as limitações biomecânicas de cada indivíduo da roda, promovendo a inclusão absoluta e não a exclusão por falta de ritmo.
5. A Situação Atual no Cenário Mundial em 2026: O Antídoto para a Hiper-digitalização
Em 2026, a Dança Circular representa um contraponto exato à hiper-digitalização do cotidiano. Enquanto o mercado global de saúde vive uma “epidemia de isolamento” impulsionada por interações puramente virtuais e inteligência artificial, a Dança Circular resgata o “toque humano” essencial para a regulação do sistema nervoso.
Contudo, a tecnologia também se tornou uma aliada do movimento. Em 2026, a prática conta com o suporte de aplicativos dedicados (como o App de Dança Circular) que mapeiam e conectam rodas regulares, eventos e retiros de forma global, facilitando o acesso da população.
Além disso, grandes corporações estão adotando as Danças Circulares em seus programas de saúde ocupacional corporativa como uma estratégia vivencial e cooperativa para combater o burnout de suas equipes, atestando que a roda continua sendo o símbolo mais eficiente de igualdade e apoio mútuo.
Conclusão
A Dança Circular nos ensina que não precisamos enfrentar as nossas dores e adoecimentos sozinhos. Quando damos as mãos na roda, o peso da biografia de um indivíduo é diluído e amparado pela força do coletivo.
Você já teve a oportunidade de participar de uma roda de Dança Circular? Como terapeuta, você percebe a diferença na musculatura e na fáscia de um paciente que vive em isolamento social comparado a um que tem forte apoio comunitário? Compartilhe suas reflexões nos comentários!
“Mãos que curam precisam de mentes que estudam.”
Um abraço fraterno e até a próxima reflexão.
Eduardo Henrique
Coordenador Nacional de Terapias Integrativas – SBMTI
(RQMTI-SBES-068)
Filósofo | Massoterapeuta Integrativo | Eterno Aprendiz

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