Maurice Merleau-Ponty, em sua obra seminal Fenomenologia da Percepção, nos ensina que o corpo não é um objeto no espaço, como uma mesa ou uma cadeira, mas sim o nosso “ponto de vista sobre o mundo”. É através da experiência corpórea que a consciência se manifesta. Se o corpo é vivido e não apenas observado, o aprendizado sobre como tratá-lo não pode ser restringido à observação visual.
Trago essa reflexão para o centro de uma discussão urgente que emergiu em nossa rede da SBMTI: a proliferação de cursos de formação em Massoterapia e Terapias Integrativas na modalidade 100% EaD (Educação a Distância).
Vivemos a era da informação rápida, mas precisamos traçar uma linha ética intransponível: a informação viaja por fibra ótica, mas a cura viaja pelo toque.
Episteme x Techne: A Distinção Necessária
Para compreendermos a posição do Conselho da SBMTI — que se coloca contra a validação de formações práticas 100% online —, precisamos revisitar a distinção aristotélica entre dois tipos de saber:
1. O EaD e a Episteme (O Saber Teórico)
A tecnologia é uma aliada extraordinária na democratização da Episteme.
- Podemos aprender Anatomia, visualizando modelos 3D em 4K.
- Podemos estudar Fisiologia, Bioquímica e Patologia através de videoaulas.
- Podemos debater História da Massoterapia, Ética e Deontologia em fóruns virtuais.
Neste campo, o online é válido, eficiente e inclusivo. Ele prepara o terreno intelectual do terapeuta.
2. O Presencial e a Techne (A Arte do Fazer)
No entanto, a Massoterapia é, em sua essência, Techne. Ela é um ofício manual que exige inteligência sensorial. E aqui reside a falácia da virtualização: o vídeo ensina a geometria do movimento, mas não ensina a física do contato.
Uma tela, por mais alta que seja sua definição, jamais transmitirá:
- A Calibração da Pressão: A diferença sutil entre um toque que alivia e um toque que lesiona (nociceptivo) depende da resposta que o tecido dá em tempo real.
- A Leitura da Fáscia: A percepção da resistência tecidual, o “derretimento” (thixotropia) da fáscia sob a mão, é uma sensação tátil, não visual.
- A Termo-percepção: Sentir o calor de uma inflamação aguda versus a frieza de uma isquemia local.
- O “Ceder” da Contratura: O momento exato em que o nódulo de tensão se desfaz, indicando que o estímulo deve cessar.
Uma Mentira Pedagógica e um Risco à Saúde
Afirmar que um estudante pode se tornar Massoterapeuta ou Terapeuta Integrativo assistindo a demonstrações em um monitor é uma mentira pedagógica. É vender a ilusão de competência.
O aluno que aprende a manobra apenas visualmente mimetiza a coreografia, mas desconhece a intenção. Ele se torna um “reprodutor de gestos”, cego para a linguagem silenciosa que a pele do paciente fala.
Mais grave ainda: é um risco à saúde pública. Um terapeuta sem supervisão presencial durante sua formação não teve sua postura corrigida (ergonomia), não teve sua força calibrada e não aprendeu a identificar, no toque, as contraindicações relativas.
O Posicionamento da SBMTI
Nossas diretrizes, que exigem carga horária prática presencial e supervisionada, não são burocracia. São mecanismos de defesa da sociedade e de valorização da nossa classe.
A SBMTI apoia a modernização do ensino e o uso de ferramentas digitais para a base teórica. Mas reafirmamos: não existe massagem virtual. O atendimento é o encontro de duas humanidades, e a transferência dessa competência exige a presença física do mestre e do aprendiz.
Não aceite atalhos. A Techne exige presença. A excelência exige suor, toque e verdade.
“Mãos que curam precisam de mentes que estudam.”
Um abraço fraterno e até a próxima reflexão.
Eduardo Henrique
Coordenador Nacional de Terapias Integrativas – SBMTI
(RQMTI-SBES-068)
Filósofo | Massoterapeuta Integrativo | Eterno Aprendiz

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