A Tríade da Responsabilidade: Conselho, Sindicato e Indivíduo

Existe um fenômeno psicológico confortável, mas perigoso, que Jean-Paul Sartre chamaria de “má-fé“: a tendência de mentirmos para nós mesmos para fugirmos da angústia de sermos livres e responsáveis. No contexto profissional, essa má-fé se manifesta na terceirização da culpa e do dever.

Durante os intensos e ricos debates em nosso Networking da SBMTI, uma “falácia” sutil pairou no ar: a ideia de que a salvação da Massoterapia e das Terapias Integrativas virá exclusivamente de fora. Ouvimos ecos de “O Conselho deve proibir isso”, “O Sindicato deve resolver aquilo”, “A fiscalização deveria ser mais rígida”.

Sim, as instituições são vitais. Mas, como brilhantemente pontuado por um colega durante nossa discussão: “Nós temos que fazer o nosso por trás”. Essa frase simples carrega uma profundidade ética que precisamos desdobrar.

Para que nossa profissão alcance o patamar que almejamos, precisamos operar não em uma linha reta de cobrança, mas em uma Tríade de Responsabilidade: o papel da Instituição, o papel da Representação e, o mais pesado deles, o papel do Indivíduo.

1. O Papel da Instituição (SBMTI)

A SBMTI, como sociedade e conselho de autorregulação, tem a função de ser o Bússola. Nós estabelecemos o Norte Ético e Técnico.

Quando emitimos uma diretriz afirmando que não é permitido curso 100% EaD para formação prática, estamos protegendo a sociedade e a integridade da técnica. Nós oferecemos o selo de qualidade, a educação continuada e o amparo legal. Mas a bússola apenas aponta o caminho; ela não caminha pelo viajante.

2. O Papel da Representação (Sindicato)

O Sindicato é o Escudo. Sua função é a luta de classe, a garantia dos direitos trabalhistas, o piso salarial e a defesa contra abusos corporativos. É fundamental apoiar e cobrar o sindicato. No entanto, o escudo protege o guerreiro, mas não lhe ensina a manejar a espada com destreza.

3. O Papel do Indivíduo (Você)

Aqui entramos no território da filosofia existencialista. Sartre nos sentenciou com a frase: “O homem está condenado a ser livre”. Condenado porque não criou a si mesmo, e livre porque, uma vez lançado no mundo, é responsável por tudo o que faz.

Essa liberdade implica responsabilidade total. Não podemos culpar o mercado pela desvalorização da profissão se nós, individualmente, alimentamos esse mercado com práticas medíocres.

A valorização da Massoterapia não acontece por decreto. Ela acontece na microfísica do cotidiano, onde nenhum fiscal vê, mas onde a sua consciência habita.

A Responsabilidade “Por Trás das Cortinas”

O que significa, na prática, “fazer o nosso por trás”?

  1. O Boicote à Mediocridade: Significa ter a coragem de recusar o curso rápido, barato e sem supervisão. Quando você compra um diploma facilitado, você está financiando a destruição da sua própria carreira futura.
  2. O Rigor Invisível: Significa estudar Fisiologia, Anatomia e Bioquímica com o mesmo afinco com que se aprende uma nova manobra de massagem. O cliente pode não saber se você sabe o que é uma interleucina, mas o corpo dele responderá diferente se o seu toque for embasado em ciência.
  3. A Ética da Porta Fechada: É tratar o cliente com dignidade absoluta, respeitar os limites do corpo, usar lençóis limpos, produtos de qualidade e manter o sigilo, mesmo que isso custe mais caro ou dê mais trabalho.

Conclusão: Seja a Mudança que Você Cobra

Se queremos ser respeitados como profissionais de saúde, precisamos agir como tal antes mesmo de a lei nos obrigar.

O Conselho (SBMTI) dará as normas. O Sindicato dará a proteção. Mas a Excelência? Essa é intransferível. Ela é solitária. Ela depende de você acordar e decidir ser um Terapeuta Integrativo de verdade, e não apenas um aplicador de técnicas.

Assumamos nossa condenação à liberdade. Escolhamos, livremente, ser excelentes.

“Mãos que curam precisam de mentes que estudam.”

Um abraço fraterno e até a próxima reflexão.

Eduardo Henrique

Coordenador Nacional de Terapias Integrativas – SBMTI

(RQMTI-SBES-068)

Filósofo | Massoterapeuta Integrativo | Eterno Aprendiz

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