Identidade e Propósito: A Definição Técnica e Filosófica da Terapia Integrativa

Olá, meus nobres colegas da SBMTI. Aqui é o Eduardo Henrique.

O filósofo Ludwig Wittgenstein dizia que “os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo”. Se não conseguimos definir com precisão o que somos e o que fazemos, limitamos nossa atuação e, pior, enfraquecemos nossa classe diante da sociedade e dos órgãos de saúde.

Durante os debates recentes em nosso Networking da SBMTI, percebi um ponto nevrálgico: a crise de identidade. Por vezes, o Terapeuta Integrativo oscila entre dois extremos perigosos. De um lado, o misticismo desconectado da realidade, onde a prática se perde em esoterismos sem fundamentação anatômica. Do outro, uma tentativa arrogante de substituir a medicina alopática, como se nossa atuação competisse com a do médico.

Precisamos, como guardiões desta profissão, cessar essa confusão. Terapia Integrativa é ciência, é arte e é política de saúde pública. Para solidificar nossa posição, recorro às bases da nossa atuação e às diretrizes da PNPIC (Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares) do SUS, estabelecendo o tripé que define nossa identidade.

O Tripé da Terapia Integrativa

Ser um Terapeuta Integrativo sob a chancela da SBMTI significa operar, obrigatoriamente, sob três pilares fundamentais: Integralidade, Complementaridade e Salutogênese.

1. Integralidade: O Olhar Socrático

A medicina moderna, por necessidade de especialização, fragmentou o homem. O cardiologista cuida do coração; o ortopedista, do osso. Nós, terapeutas, retomamos o olhar socrático. No diálogo Cármides, Platão já nos alertava: “não se pode tentar curar os olhos sem curar a cabeça, nem a cabeça sem o corpo, nem o corpo sem a alma”.

A Integralidade significa que não tratamos uma lombalgia; tratamos um ser humano que sofre de dor lombar. Investigamos a biomecânica (corpo), o nível de estresse (mente) e o propósito de vida ou estado emocional (espírito/psique). Para nós, o indivíduo é uma unidade indivisível. A patologia é apenas o grito de um sistema inteiro em desequilíbrio.

2. Complementaridade: A Soma, não a Subtração

É vital erradicar a falácia de que somos “alternativos” no sentido de excludentes. Somos Complementares.

  • A medicina alopática é insubstituível na emergência, no trauma agudo, na cirurgia e no controle químico da patologia.
  • A Terapia Integrativa entra onde o fármaco não alcança: na funcionalidade, na educação de hábitos, no reequilíbrio energético e na homeostase mecânica.

Nós trabalhamos com a medicina convencional, não contra ela. Onde o médico atua na bioquímica da doença, nós atuamos na qualidade de vida do doente. Essa postura ética não apenas protege o paciente, mas nos garante o respeito da comunidade científica.

3. Foco na Salutogênese: A Origem da Saúde

Talvez este seja o nosso maior diferencial. O modelo biomédico tradicional é focado na Patogênese (o estudo da origem e evolução da doença). Nós focamos na Salutogênese (o estudo da origem da saúde).

Nossa pergunta clínica não é apenas “qual é a sua doença?”, mas sim “quais recursos seu corpo ainda tem para se curar?”.

Ao utilizarmos recursos como Acupuntura, Yoga, Fitoterapia, Meditação ou Massoterapia, não estamos apenas suprimindo sintomas. Estamos despertando a Vis Medicatrix Naturae — o poder de cura da própria natureza —, conceito cunhado por Hipócrates, o pai da medicina. Nosso trabalho é remover os obstáculos (tensões, estagnações, bloqueios) para que o organismo do paciente possa exercer sua função natural de auto-regulação.

Conclusão: Assumindo Nossa Grandeza

Colegas, a Terapia Integrativa não é um “prêmio de consolação” para quem não fez medicina. É uma área nobre, autônoma e indispensável à saúde moderna.

Ao assumirmos essa identidade — pautada na visão integral, na colaboração complementar e no foco na saúde —, deixamos de ser vistos como curiosos e passamos a ocupar nosso lugar de direito nas equipes multidisciplinares.

Que a SBMTI continue sendo a casa onde essa identidade é forjada com rigor técnico e calor humano.

“Mãos que curam precisam de mentes que estudam.”

Um abraço fraterno e até a próxima reflexão.

Eduardo Henrique

Coordenador Nacional de Terapias Integrativas – SBMTI

(RQMTI-SBES-068)

Filósofo | Massoterapeuta Integrativo | Eterno Aprendiz

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