Biossegurança Não é Só Álcool 70: Protocolos Essenciais Pós-Pandemia

Olá, meus nobres colegas da SBMTI. Aqui é o Eduardo Henrique.

Durante a pandemia de 2020, o mundo parou e foi obrigado a olhar para o invisível. Aprendemos, a duras penas, que o ar que respiramos e as superfícies que tocamos podem carregar ameaças silenciosas.

Na filosofia, o pensador Emmanuel Levinas dizia que a ética é a “responsabilidade infinita pelo Outro“. Quando um cliente entra na nossa cabine, ele se despe (literalmente e metaforicamente) e confia sua integridade física às nossas mãos. Essa confiança é sagrada.

Hoje, no Tema 19, vamos falar sobre Biossegurança. E já adianto: deixar um frasco de Álcool 70% na recepção não é biossegurança, é apenas o mínimo existencial. Vamos aprofundar nos protocolos que separam o profissional de saúde do amador perigoso.


O Mito da “Limpeza Visual”: O que os Olhos não veem, a Bactéria sente

Muitos terapeutas acreditam que se a sala está cheirosa e sem manchas visíveis, está limpa. Isso é um erro técnico grave.

Precisamos distinguir três conceitos fundamentais:

  1. Limpeza: Remoção de sujeira visível (óleo, pele morta, poeira) com água e sabão.
  2. Desinfecção: Uso de agentes químicos (como Álcool 70, Hipoclorito) para matar a maioria dos microrganismos.
  3. Esterilização: Morte total de todas as formas de vida microbiana (feita em autoclave).

O Erro Comum: Passar álcool direto na maca engordurada de óleo. O álcool perde a eficácia na presença de matéria orgânica. Se você não limpar o óleo antes (com detergente enzimático ou sabão neutro), o álcool não penetra e as bactérias sobrevivem felizes embaixo da camada de gordura.

O Enxoval: A Fronteira entre Dois Corpos

Existe uma prática abominável no submundo da massagem chamada “virar o lençol”. O terapeuta usa um lado para um cliente e vira o lado “limpo” para o próximo.

Do ponto de vista microbiológico, isso é um crime. Tecidos de algodão são porosos. Suor, fungos (Tineas) e bactérias (como Staphylococcus aureus) atravessam a trama do tecido.

O Protocolo Ético e Seguro:

  • Descartáveis: O ideal ouro (Gold Standard) é o uso de lençóis de TNT (Tecido Não Tecido) e papel hospitalar na maca, trocados a cada atendimento.
  • Tecido: Se você usa lençóis de tecido (pelo conforto e experiência tátil), eles devem ser trocados integralmente a cada cliente.
  • Lavagem: Esses lençóis não podem ser lavados com a roupa de casa. Devem ser lavados em ciclo quente ou com uso de água sanitária/lisofórmio para garantir a desinfecção térmica ou química.

Lembrem-se: O cliente deita onde outro corpo suou. Se houver contágio de uma micose ou sarna (escabiose), a culpa e a responsabilidade são suas.

Ferramentas de Trabalho: Pedras, Ventosas e Bambus

Aqui mora o maior perigo de contaminação cruzada. Nossos instrumentos entram em contato direto com a pele e, às vezes, com microlesões.

  • Pedras Quentes: As pedras vulcânicas são porosas. Elas “bebem” o óleo e as células mortas do cliente. Apenas passar um pano não resolve.
    • Protocolo: Devem ser lavadas com água e sabão (escovadas) e depois fervidas ou imersas em solução desinfetante de alto nível. Jamais devolva uma pedra usada para a panela aquecida sem lavar, ou você estará criando uma “sopa de bactérias” onde as pedras ficam marinando.
  • Ventosas:
    • Ventosa Seca: Exige lavagem com detergente e desinfecção com álcool 70 friccionado.
    • Ventosa Molhada (Sangria): Se houve contato com SANGUE, a ventosa precisa ser de vidro e esterilizada em autoclave ou ser descartável. O acrílico não aguenta autoclave e o vírus da Hepatite B e C é extremamente resistente. Não brinque com sangue.
  • Bambus e Madeiras: São materiais orgânicos que podem criar fungos se ficarem úmidos. Devem ser higienizados e secos imediatamente.

A Espada da Lei: Responsabilidade Civil e Criminal

Juridicamente, a transmissão de uma doença dentro do seu estabelecimento (uma dermatite fúngica, uma foliculite severa por óleo contaminado) é considerada Defeito na Prestação do Serviço (Código de Defesa do Consumidor).

Além de ter que indenizar o cliente pelo tratamento médico e danos morais, você pode responder por Lesão Corporal Culposa (por negligência ou imperícia).

A biossegurança não é “chata” ou “cara”. Ela é o seu seguro contra processos. Um cliente que sai da sua clínica com uma infecção de pele vai contar para dez pessoas. A mancha na reputação é muito mais difícil de limpar do que a mancha na toalha.

Conclusão: O Templo Limpo

Para os gregos, o Temenos era um pedaço de terra sagrado, separado do uso comum, dedicado aos deuses. Sua cabine é o seu Temenos.

Não permita que a sujeira profana entre no espaço de cura. O cheiro de limpeza deve ser real, e a segurança do seu cliente deve ser a prioridade número zero.

Quando você limpa sua maca corretamente, você não está apenas removendo sujeira. Você está dizendo ao próximo cliente: “Eu te respeito e cuido de você antes mesmo de você chegar”.

“Mãos que curam precisam de mentes que estudam.”

Um abraço fraterno e até a próxima reflexão.

Eduardo Henrique

Coordenador Nacional de Terapias Integrativas – SBMTI

(RQMTI-SBES-068)

Filósofo | Massoterapeuta Integrativo | Eterno Aprendiz


Vamos fazer um checklist? Olhe para suas pedras ou ventosas agora. Você teria coragem de usá-las em si mesmo ou em um filho seu, do jeito que elas estão? Se a resposta for “não”, é hora de lavar tudo. Comente “Biossegurança Já” se você concorda! 👇

2 respostas para “Biossegurança Não é Só Álcool 70: Protocolos Essenciais Pós-Pandemia”

  1. Avatar de Rose
    Rose

    Bio segurança já

    1. Avatar de Eduardo Henrique

      Já e sempre!!!
      Nunca podemos abandonar!!

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