O Dilema de Molyneux e a Massoterapia: A Irredutibilidade do Toque na Era Digital

Em 1688, o filósofo naturalista William Molyneux enviou uma carta a John Locke, um dos pais do empirismo, propondo um experimento mental que desafiaria séculos de compreensão sobre a mente humana. A questão era aparentemente simples: imagine um homem cego de nascença que, através do tato, aprendeu a distinguir perfeitamente entre um cubo e uma esfera. Se, por um milagre, esse homem recuperasse a visão, ele conseguiria distinguir o cubo da esfera apenas olhando para eles, sem tocá-los?

Locke, e posteriormente a ciência cognitiva moderna, responderam que não. A visão não carrega, a priori, as informações de textura, densidade, temperatura e resistência que o tato construiu. O cérebro precisa “aprender a ver” correlacionando a imagem com a experiência tátil prévia.

Trago essa reflexão do século XVII para o centro do debate acalorado que tivemos em nosso Networking da SBMTI em 2026. A pergunta que ecoa em nossos grupos é a versão moderna do dilema de Molyneux: “Pode um estudante, ‘cego’ de experiência tátil, tornar-se um terapeuta apenas ‘vendo’ aulas através de uma tela?”

A Ilusão da Techne Digital

Vivemos a democratização do acesso à informação. Hoje, um aluno no interior do Amazonas pode ter acesso à mesma teoria anatômica que um doutorando em Harvard. Isso é maravilhoso para a Episteme (o conhecimento teórico). No entanto, a Massoterapia e as Terapias Integrativas não são apenas ciência; são Techne (a arte do fazer).

No debate sobre cursos 100% EaD (Ensino a Distância), enfrentamos uma falácia perigosa: a crença de que a instrução visual substitui a calibração sensorial.

Quando assistimos a um vídeo de uma manobra de Petrissage ou de liberação miofascial, estamos operando no campo visual. Vemos a forma, o vetor e a direção. Mas a tela do computador não transmite:

  1. A Tensão de Cisalhamento: A resistência que a pele oferece antes de deslizar.
  2. A Barocepção: A quantidade exata de pressão necessária para atingir o tecido profundo sem gerar dor nociceptiva (lesiva).
  3. A Resposta Tecidual: O momento sutil em que o músculo “cede” ou a fáscia libera, algo que não é visível a olho nu, apenas perceptível aos mecanorreceptores das mãos treinadas.

Acreditar que se forma um massoterapeuta sem o toque supervisionado é cair na armadilha de Molyneux: achar que ver o cubo é o mesmo que sentir o cubo.

O Risco da “Descorporificação” do Cuidado

Como Coordenador Nacional de Terapias Integrativas, minha preocupação — e a posição oficial da SBMTI — não é com o formato da aula teórica, mas com a segurança do paciente.

A anatomia nos livros e nas telas 3D é estática, idealizada e padronizada. O corpo humano real, deitado na maca, é dinâmico, assimétrico e reativo. Um aluno formado exclusivamente à distância pode saber onde fica o músculo esternocleidomastoideo, mas ele saberá distinguir, pelo tato, a diferença entre uma contratura defensiva e um nódulo fibroso? A visão não lhe dará essa resposta. Apenas a mão educada (o “tato inteligente” citado por Montessori) pode fazer tal distinção.

A filosofia fenomenológica de Merleau-Ponty nos ensina que o corpo é o nosso “ancoradouro no mundo”. Na terapia integrativa, nós não tratamos imagens; tratamos corpos vividos. Tentar aprender a tratar o corpo eliminando o contato físico do processo de aprendizagem é uma contradição em termos. É uma “descorporificação” do cuidado.

A Posição da SBMTI: Guardiões da Essência

Durante nossas conversas no grupo de Networking, reafirmamos um compromisso ético: não validamos, não recomendamos e combatemos a oferta de formação prática em saúde 100% online.

Isso não é tecnofobia. A tecnologia é bem-vinda para ensinar história, bioética, gestão de carreira e fisiologia. Mas a prática exige a presença. Exige o mestre que pega na mão do aprendiz e diz: “Sente isso? É aqui que você para.”

O aluno que busca o caminho fácil do curso totalmente online está, infelizmente, comprando a ilusão de que pode distinguir a esfera do cubo apenas olhando. Mas quando o paciente real chegar com dor, a visão não será suficiente.

Conclusão

Que o Dilema de Molyneux sirva de alerta para nossa classe. A facilidade digital não pode suplantar a complexidade biológica.

Aos estudantes: busquem escolas que sujem suas mãos de óleo e creme, onde o professor corrija sua postura e sua pressão.

Aos profissionais veteranos: continuem sendo os guardiões desta “nobre arte”.

A massoterapia é, e sempre será, uma conversa silenciosa entre duas histórias: a que reside nas mãos do terapeuta e a que reside no corpo do paciente. E essa conversa, meus caros, não pode ser feita por Wi-Fi.

Fortiter in re, suaviter in modo. (Firme na execução, suave na forma).

“Mãos que curam precisam de mentes que estudam.”

Um abraço fraterno e até a próxima reflexão.

Eduardo Henrique

Coordenador Nacional de Terapias Integrativas – SBMTI

(RQMTI-SBES-068)

Filósofo | Massoterapeuta Integrativo | Eterno Aprendiz

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